Por Medha V.
As ondas de calor estão se tornando mais comuns e frequentes ao redor do planeta. Uma ONG agora está implantando IA para ajudar comunidades vulneráveis a combater suas consequências.
À medida que as ondas de calor se tornam mais comuns, frequentes e intensas na Índia e em todo o mundo, pesquisadores dizem que elas têm tido um efeito desproporcional em algumas das comunidades mais pobres do mundo.
Na Índia, esse impacto mais severo está sendo sentido nas favelas do país, que podem ser até 6°C mais quentes do que outras partes da cidade, de acordo com pesquisadores.
“Nas favelas, é muito difícil sair de casa e encontrar sombra em um dia quente de verão”, diz Anshu Sharma. “É tão cheio. As casas geralmente são feitas de placas de metal, que esquentam muito mais rápido em comparação a outros materiais”.
Sharma é o co-fundador da SEEDS, uma organização sem fins lucrativos para resposta e prevenção de desastres naturais sediada em Nova Delhi, que tem medido a disparidade de temperatura entre as favelas e outras partes da cidade.
Desde 2017, a SEEDS tem trabalhado com as comunidades mais vulneráveis às ondas de calor, a fim de ajudar as pessoas a criarem soluções para combater a temperatura. E, agora, com o apoio do fundo AI for Humanitarian Action da Microsoft, a SEEDS tem desenvolvido um modelo de Inteligência Artificial (IA) para prever o impacto de diversos perigos, como ciclones, terremotos ou ondas de calor em qualquer área.
O modelo, chamado de “Vidas Ensolaradas”, gerou informações sobre o risco de ondas de calor para cerca de 125.000 pessoas que vivem em favelas em Nova Delhi, a extensa capital da Índia, e Nagpur, uma cidade no centro da Índia suscetível a ondas de calor intensas.
Aqui está a história de como a SEEDS uniu tecnologia de ponta, pesquisas porta a porta e gestão colaborativa de projetos para conscientizar sobre o que, muitas vezes, é um inimigo invisível.
Um inimigo invisível

Em humanos, o estresse térmico é conhecido por causar aumento da pressão sanguínea, fadiga extrema e dificuldade para dormir. O risco de estresse térmico é maior ao ar livre, entre meio-dia e 16h. Mas, de forma alarmante, ficar em ambientes fechados pode ser mais perigoso em alguns casos.
De maneira geral, se você não mora em uma casa feita do tipo certo de material, pode ficar mais quente dentro do que fora de casa. Sharma compartilhou alguns números para enfatizar a questão.
“Vamos supor que a temperatura lá fora esteja em média 38°C,” diz ele. “Se você mora em um barraco de metal em uma favela, a temperatura dentro de casa pode ser tão alta quanto 45°C. E são as pessoas mais velhas e crianças pequenas, que passam o dia em casa, que sofrem”.
Um ponto central do problema é o fato de que a maioria dos materiais de construção improvisados usados nas favelas urbanas retém mais calor, aumentando, assim, a temperatura dentro de casa. Os telhados são, frequentemente, feitos de placas de metal e as casas são amontoadas, sem janelas ou ventilação.
Um estudo recentemente publicado pela Nature examinou a variação de temperatura interna em diferentes tipos de moradia em cinco locais de baixa renda no sul da Ásia. Uma das principais descobertas do estudo foi sobre a variação de temperatura mensal em casas com telhados de metal em uma vila no estado indiano ocidental de Maharashtra: nos meses de maio e junho, a temperatura estava uns três ou quatro graus Celsius maior do que a temperatura externa.
Esse tem sido um cenário especialmente preocupante este ano.
Verões escaldantes no subcontinente da Índia são considerados a regra, mas mesmo para os próprios padrões da região, o calor este ano foi intenso e generalizado. Em meados de maio, o Departamento Meteorológico da Índia relatou recordes de altas temperaturas entre 45°C e 50°C em várias partes do país.
Especialistas acreditam que ondas de calor tão intensas assim provavelmente vão continuar. De acordo com um estudo publicado na revista Weather and Climate Extremes ano passado, a Índia presenciou mais que o dobro do número de ondas de calor entre 2000-2019 do que entre 1980-1999.
“No futuro, esses tipos de ondas de calor serão normais”, disse o professor Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), em um relatório recente.
“Com o apoio do fundo AI for Humanitarian Action da Microsoft, a SEEDS e o laboratório AI for Good têm desenvolvido um modelo de IA para prever o impacto de diversos perigos, como ciclones, terremotos ou ondas de calor em qualquer área”.
O maior desafio da SEEDS é comunicar os perigos de uma onda de calor. Diferente de inundações, terremotos e ciclones, o impacto de uma onda de calor não é exatamente visível. É por isso que as pessoas tendem a deixar passar como uma ocorrência rotineira.
Existe um outro obstáculo: a falta de dados de qualidade. “A maioria das mortes que acontecem devido ao calor não são reportadas como mortes por estresse térmico”, disse ele. “Porque, eventualmente, a pessoa vai morrer por uma febre, ou uma parada cardíaca ou desidratação. E é isso que é registrado”.
IA na comunidade
A SEEDs usa o modelo de IA Vidas Ensolaradas, que foi desenvolvido com o laboratório AI for Good da Microsoft e apoiado por um investimento do programa AI for Humanitarian Action. O pipeline de riscos que influencia o modelo de IA foi co-desenvolvido com a empresa de ciência de dados Gramener e oferece um mapa de riscos para uma área em particular. No mapa, cada propriedade é catalogada por cores de acordo com a sua “pontuação de risco”.
Densidade urbana, vegetação, proximidade do imóvel a um corpo d’água, classificação dos tipos de telhado: esses são alguns dos principais parâmetros que compõem a matriz que a SEEDS usa para calcular a pontuação de risco. O material do telhado, com sua capacidade de absorção de calor, é um ponto crucial nos dados: construções são identificadas, classificadas e mapeadas com base nessa capacidade.
O mapa de risco pode ser sobreposto a um mapa comum disponível em um smartphone, o que facilita o acesso dos voluntários quando vão a campo. Os mapas os ajudam a descobrir vários pontos de ação: onde devem ir para colocar avisos, onde a escassez da água pode ser um problema ou onde as autoridades locais precisarão direcionar recursos.
Mas não basta usar a tecnologia isoladamente. Modelos de IA são altamente técnicos e difíceis de entender, então é importante que a informação transmitida às pessoas seja lúcida e simples.

Para isso, a SEEDs conduziu questionários, concursos e discussões com grupos focais durante os meses de verão através de uma rede de escolas, ONGs e grupos de voluntários, que fizeram campanha porta a porta em Delhi.
“As pessoas não se importam se nós dissermos a elas que a pontuação de risco para a sua casa é cinco”, disse Mridula Garg, líder de Ambiente Urbano e Construído na SEEDS. “Mas incorporar toda a mensagem no nosso questionário realmente ajudou. Nós fizemos com que eles respondessem perguntas sobre seus ambientes domésticos e os ajudamos a criar suas próprias pontuações de risco”.
O questionário para ’vencer o calor’ também inclui perguntas de múltipla escolha, como ‘o que você deveria beber para combater a desidratação’ e ‘como identificar sintomas de estresse térmico’, para aumentar o nível de consciência sobre o problema.
Nos últimos dois anos, a SEEDS alcançou 23 comunidades no leste de Delhi com essa abordagem participativa. Seus primeiros pontos de contato foram crianças em idade escolar, que, geralmente, são mais receptivas a novas informações e estão fervilhando com ideias.
Tome como exemplo Vanshika Paswan, residente de Shakarpur, no leste de Delhi. Nos verões escaldantes da cidade, o tanque de água suspenso da sua família costumava aquecer rapidamente, distribuindo água quente pela tubulação mesmo depois do pôr do sol. Como parte de um concurso de conscientização conduzido pela SEEDS, a adolescente criou uma solução DIY de baixo custo para isolar o tanque de água.
A ideia a atingiu quando ela viu um refrigerador de bebidas improvisado em uma loja perto de sua casa. A maioria das lojas locais no seu bairro de baixa renda não possui refrigeradores. Em vez disso, eles refrigeram comida, água e outras bebidas em caixas de isopor cheias de gelo, ou o que é conhecido como “termocol” no linguajar local. Aproveitando essa ideia, Vanshika cobriu o tanque de água com folhas de isopor e sacos de juta, que deram isolamento térmico suficiente para impedir o aquecimento da água.
A SEEDS também conduz de forma proativa intervenções para ajudar a proteger cidadãos em maior risco. Durante os verões do ano passado, eles ajudaram a modificar uma casa no bairro Kishankunj, localizado no leste de Delhi.
“Os moradores eram ambos idosos vivendo em uma casa de telhado de metal que costumava ficar extremamente quente no verão”, disse Rinki Gupta, gerente de projetos na SEEDS.
O time posicionou uma placa isolante no telhado, que ajudou a diminuir a temperatura interna. Pouco tempo depois, outras famílias no bairro implementaram a mesma solução, mas nem todos conseguiram arcar com o custo, que foi em torno de INR 15,000 (aproximadamente US $190).
Razia, uma empregada doméstica, foi uma dessas pessoas. Inspirada pela solução, ela criou uma ideia inovadora e de baixo custo para esfriar sua própria casa. Em vez de usar placas isolantes caras, ela colocou alguns sacos de juta no topo do seu telhado de bambu, o que proporcionou algum isolamento térmico. Um saco de juta custa apenas INR 50 – menos que um dólar – ao ser comprado de feirantes locais.
Mudando metas
Até agora, o modelo de onda de calor da SEEDS tem focado nas pessoas socialmente vulneráveis. Mas, agora, a organização está se envolvendo com vários governos estaduais na Índia para expandir o modelo para grupos de áreas com média e alta renda. Na cúpula da COP-26 ano passado, a Índia se comprometeu em ser neutra em carbono até 2070.
“Governos estão agora nos pedindo para estender nosso modelo de IA para criar uma abordagem científica a fim de reduzir pegadas e emissões de carbono”, disse Sharma. “Então, estamos reproduzindo o modelo em outras áreas residenciais também, sobre esses telhados planos de concreto (de prédios com vários andares) e observando que tipo de aumento terá no uso de energia, se houver uma onda de calor, e como podemos reduzir isso”.
O que começou como uma organização de resposta a desastres está agora se movendo para abordar a questão iminente da mudança climática. Este trabalho poderia, potencialmente, ter aplicações globais.
Medha V. é editora de texto na FiftyTwo, uma publicação digital. Ela mora em Delhi.