Um site especial pode ajudar pessoas neuro divergentes a encontrar trabalho sem que deixem deixarem de ser quem são

Kelly Everly-Hall estava pronta para sua entrevista. Ela escolheu uma roupa bonita, revisou seu currículo e sabia que tinha as habilidades necessárias para o trabalho de TI que desejava. Mas as coisas desandaram assim que ela precisou conversar com um grupo de três entrevistadores, algo que nunca havia feito.

Ela ficou nervosa, se confundiu e não conseguia fazer contato visual. Teve dificuldade em descrever suas habilidades e, então, perguntou se poderia demonstrá-las em um computador, mas a resposta foi não. Ela não se sentia à vontade para tirar dúvidas sobre a vaga e o trabalho.

“Em 10 minutos eu já sabia que não ia conseguir o emprego”, diz Everly-Hall, cujo autismo dificulta algumas interações. “Foi como se eu tivesse perdido antes mesmo de começar.”

Kelly Everly-Hall (foto de Rachel Woolf)

Um novo site de vagas de trabalho busca solucionar essa questão conectando pessoas neurodivergentes como Everly-Hall com empresas que possuem programas de contratação para esse público. Lançado este mês, o Neurodiversity Career Connector traz vagas de empregadores dos EUA que procuram candidatos com transtorno do espectro do autismo, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), dislexia e outras condições associadas ao funcionamento cerebral neurodivergente ou atípico. O site foi lançado pela Neurodiversity @ Work Employer Roundtable, que reúne cerca de 50 empresas com programas de contratação de neurodiversidade e sistemas de apoio para novos funcionários. A Microsoft lidera o grupo, cujo objetivo é diminuir as barreiras de emprego e ampliar a neurodiversidade no local de trabalho.

“Estamos tentando resolver uma situação em que os empregadores dizem que querem contratar talentos neurodivergentes e não conseguem encontrar pessoas, e os candidatos dizem que não conseguem descobrir quem são esses empregadores”, diz Neil Barnett, diretor de Acessibilidade e Contratação Inclusiva da Microsoft.

O conceito de neurodiversidade surgiu nos anos 1990 como um movimento inclusivo, que vê as condições neurológicas e de desenvolvimento como variações normais em traços cognitivos que devem ser aceitos como parte da diversidade humana. Estima-se que 15% a 20% das pessoas em todo o mundo tenham uma condição neurodivergente. O autismo, o foco inicial de muitos programas de contratação de neurodiversidade, afeta cerca de 2% dos adultos americanos.

Algumas pessoas neurodivergentes têm dificuldade com interações sociais e ambientes desconhecidos, como entrevistas de emprego tradicionais, que destacam habilidades sociais e a capacidade de responder a perguntas como “Descreva um desafio que você enfrentou”, diz Susanne Bruyere, diretora acadêmica do Instituto Yang-Tan sobre Emprego e Deficiência, na Universidade de Cornell.

Susanne Bruyere (foto de Bruyere)

Essa barreira leva a uma grande lacuna de emprego – apenas 14% da população economicamente ativa com autismo exercem trabalho remunerado, de acordo com um estudo da Drexel University.

“É importante repensarmos como selecionamos as pessoas para não desencorajar ou eliminar candidatos neurodivergentes”, diz Bruyere. “Essa plataforma é um grande sinal de boas-vindas, que diz: ‘Reconhecemos que esses são talentos não descobertos e vamos minimizar as barreiras que as pessoas podem ter enfrentado historicamente.’”

Antes que os empregadores possam oferecer empregos no site, eles devem ter um programa de contratação de neurodiversidade em vigor por pelo menos um ano, divulgado publicamente. Isso significa ter recrutadores treinados, processos de coaching e entrevistas com apoio, orientação detalhada e intervalos extras.

Uma dessas empresas, a EY, contratou mais de 300 pessoas em sete países desde 2016 por meio de um modelo de “centro de excelência”. O programa enfatiza empatia, processos de coaching e comunicação estruturada e explícita sem “regras tácitas e não oficiais”. As entrevistas se concentram em habilidades, não em comportamentos sociais.

“Isso elimina questões como: ‘A pessoa fez contato visual? Ela é traquejada?’”, diz Hiren Shukla, líder do Neuro-Diverse Center of Excellence da EY Global.

Muitos dos funcionários do programa trabalham em novas tecnologias de dados, onde a mistura colaborativa de estilos de pensamento – espontâneo, lógico, visual, detalhista, hiperfocado – pode levar ao trabalho transformador e à inovação.

“Esta plataforma de carreira é um grande sinal de boas-vindas.”

“Grandes organizações são boas em reconhecer pessoas para formar grandes equipes que, sem perceber, deixam de fora pontos de vista únicos e o que a comunidade neurodivergente geralmente chama de ‘perfis spiky”, diz Shukla. “Mas é o perfil spiky que você deseja manter e apoiar para permitir que essa inovação venha à tona” (o termo “spiky” é usado para descrever pessoas com habilidades excepcionais em certas áreas, ao mesmo tempo em que apresentam dificuldades em outras).

Hiren Shukla (foto de Shukla)

As empresas que buscam talentos neurodivergentes normalmente recrutam candidatos por meio de redes informais e relacionamentos com universidades locais, ONGs e grupos de advocacy – um processo demorado tanto para recrutadores quanto para candidatos. Esse banco de vagas voltado para a neurodiversidade atende à demanda por um site com grande variedade de empregos, empregadores e pessoas.

Atualmente, o site tem muitas vagas de empresas pequenas e grandes para engenheiros de software, designers gráficos, analistas financeiros, e muito mais. Os candidatos podem criar um perfil, fazer upload de um currículo e se conectar diretamente com os empregadores.

Everly-Hall, que foi diagnosticada com autismo aos 40 anos, diz que a plataforma seria útil se ela tivesse que procurar trabalho novamente.

“Eu poderia ser eu mesma e dizer que essa é quem eu sou”, diz ela. “Me causaria menos estresse saber que posso dizer: ‘Estou no espectro. Você entende isso. Eu entendo isso.’” Mas Everly-Hall não está procurando emprego porque está feliz com seu trabalho na Ultranauts, uma empresa de engenharia de software e qualidade de dados, formada pensando na neurodiversidade, e que está crescendo rapidamente. Mais de 75% de seus funcionários são neurodivergentes. A maioria é autista, muitos têm TDAH ou dislexia, e alguns não falam ou têm deficiência auditiva.

Kelly Everly-Hart e seu cachorro Rockie (foto de Everly-Hart)

Quando Everly-Hall foi entrevistada pela empresa em 2015, ela falou sobre seu quadro de autismo e viu que o entrevistador era paciente e compreensivo. Sete anos depois, ela ainda gosta do ambiente de apoio no local de trabalho, que inclui um mentor para ajudar a interpretar interações sociais e a chance de chegar a líder, uma oportunidade que ela não tinha em empregos anteriores.

“Fiquei à vontade imediatamente: ‘Não nos importamos que você tenha essa deficiência. O que importa é a sua experiência’”, diz Everly-Hall, analista sênior de qualidade e consultora de acessibilidade que trabalha de sua casa em Colorado Springs, no estado americano do Colorado.

Fundada em 2013, a Ultranauts projetou um “Local de Trabalho Universal” que permite que os funcionários participem plenamente e colaborem com colegas que são diferentes deles. A empresa reduz as barreiras de contratação por não exigir diplomas específicos ou determinado tempo de experiência. Para selecionar candidatos, são realizadas avaliações de habilidades em vez de entrevistas.

Os funcionários, que trabalham remotamente em 30 estados dos EUA, são incentivados a se comunicar em seu modo preferido – escrevendo ou falando com a câmera ligada ou desligada. A comunicação da liderança é direta e transparente para reduzir a ansiedade e possíveis ambiguidades.

“A vantagem que temos não é o fato de os membros individuais da equipe serem excepcionais, mas de reunir diferentes tipos de cérebro, modelos e perspectivas de processamento de informações e formar equipes colaborativas”, diz Rajesh Anandan, cofundador e CEO da Ultranauts.

Rajesh Anandan (foto de Anandan)

A neurodiversidade também fortalece as equipes da Microsoft, que contratou cerca de 200 pessoas nas áreas de engenharia e negócios por meio de seu programa de contratação de neurodiversidade.

“Ao ajustar o acesso ao nosso processo de entrevista, encontramos talentos incríveis que antes estávamos perdendo”, diz Barnett. Ele espera que mais empregadores se juntem à iniciativa para enriquecer tanto seus times quanto a vida de pessoas neurodivergentes.

Para Jason Ross, a plataforma é um passo importante no apoio a pessoas que enfrentaram as mesmas dificuldades que ele.

Antes de conseguir um emprego na área de segurança cibernética recentemente, Ross, que tem autismo, passou muitos meses desmoralizantes procurando trabalho e muitos anos sendo demitido enquanto tentava entender as dinâmicas de escritório.

“É muito difícil quando você quer se sair bem e não consegue, a ponto de não conseguir sobreviver”, diz Ross, que mora no estado americano da Virgínia e tem mestrado em estudos de segurança cibernética.

Ele nunca discutiu seu autismo em empregos anteriores, mas resolveu se arriscar dessa vez e explicou seu caso a seu novo gerente. Ele está seguindo o conselho de um mentor para ser franco e simplesmente dizer às pessoas que ele não “se destaca em interações sociais”. Ele está nervoso, mas animado com a oportunidade de trabalhar.

“Eu não sou menos. Eu sou diferente e está tudo bem”, diz Ross.

Ele também está animado com o site, que ele e outras pessoas neurodivergentes ajudaram a desenvolver com seus comentários e experiências.

“É um recurso fenomenal”, diz. “É feito para nós, por nós. Esse nível de compreensão, que está lá desde o começo, é uma diferença importante dessa plataforma sobre as outras”. Acesse a Neurodiversity @ Work Employer Roundtable e assista a um vídeo para saber mais sobre seu trabalho e o Neurodiversity Career Connector. Empregadores também podem encontrar recursos para iniciar iniciativas de contratação por meio do Autism @ Work Playbook.

Foto de capa: Avatares dos empregados da Ultranaut (cortesia da Ultranaut)

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