A aposta da Morais Leitão na IA nunca foi apenas sobre tecnologia
As sociedades de advogados competem em conhecimento especializado e experiência. Num setor em transformação através da inteligência artificial, coloca-se uma nova questão: como garantir que o conhecimento acumulado ao longo de décadas continua acessível, reutilizável e relevante? Para a Morais Leitão, uma das principais sociedades de advogados independentes em Portugal, a resposta não passou por comprar um produto de IA jurídica, mas por criar uma plataforma em torno do único ativo que nenhum concorrente poderia replicar: o seu próprio conhecimento coletivo.
O desafio tornou-se cada vez mais urgente nos serviços profissionais. Conhecimento valioso – pareceres jurídicos, análises regulatórias, jurisprudência e trabalho desenvolvido para clientes – permanece muitas vezes disperso por caixas de correio, pastas, repositórios privados ou pela memória individual. A informação, por si só, não gera vantagem competitiva; o valor resulta da forma como o conhecimento é captado, interligado e partilhado. A Morais Leitão identificou desde cedo este problema.
Fundada em Portugal e presente em várias jurisdições, incluindo Angola, Moçambique, Cabo Verde e Singapura, a sociedade já investia há vários anos na transformação digital. Muito antes de a pandemia acelerar a adoção da cloud noutras organizações, a ML já tinha normalizado a tecnologia e a colaboração entre escritórios, criando uma base digital comum para os seus profissionais, independentemente do local onde trabalhavam.
À medida que a IA generativa transformava os serviços profissionais, a Morais Leitão viu uma oportunidade não apenas para automatizar tarefas, mas para repensar a forma como o conhecimento jurídico era acedido e aplicado. “Percebemos que a IA generativa teria um enorme impacto na forma como trabalhamos”, afirma Carlos Coelho, sócio e responsável pela Inovação e pelo Conhecimento na Morais Leitão. “A questão era como iríamos responder a esse desafio.”
Porque é que uma solução de IA pronta a usar não era suficiente
A Morais Leitão avaliou o mercado em rápida expansão das plataformas de IA jurídica, testando soluções de referência e explorando o potencial da nova geração de assistentes jurídicos.
A avaliação reforçou uma convicção: a tecnologia, por si só, não diferenciaria a sociedade. As soluções comerciais de IA jurídica poderiam acelerar o trabalho, mas não conseguiriam incorporar o conhecimento que tornava a Morais Leitão única – a forma como os seus advogados pensavam, escreviam, analisavam processos e aplicavam a experiência. Esse entendimento tornou-se a base do ML One AI.
“O fator diferenciador não podia ser a tecnologia. Tinha de ser o nosso conhecimento”, afirma Carlos Coelho. “A forma como escrevemos, a forma como pensamos, os processos que temos.”
A criação do ML One AI deu à Morais Leitão controlo sobre a forma como o seu conhecimento era organizado, governado e melhorado, preservando simultaneamente o capital intelectual desenvolvido por centenas de profissionais ao longo de décadas de prática jurídica. “Temos de proteger os nossos principais ativos: o conhecimento, a experiência e as nossas pessoas”, afirma Carlos Coelho.
Em colaboração com a tecnológica portuguesa Xpand IT, a sociedade começou a desenvolver uma plataforma de IA generativa assente no seu próprio conhecimento especializado, em vez de numa camada genérica de tecnologia jurídica. O projeto implicou indexar, de acordo com os requisitos internos aplicáveis, mais de vinte anos de conhecimento institucional e uma vasta biblioteca digital de recursos jurídicos.
Desenvolvido sobre Microsoft Azure, Azure AI Foundry, Azure AI Search e os serviços Azure OpenAI, o ML One AI combina capacidades de IA generativa com uma arquitetura de conhecimento concebida para apoiar o trabalho jurídico. Os advogados podem explorar o conhecimento interno a que estão autorizados a aceder, rastrear as respostas até às fontes originais e combinar conhecimento institucional com informação externa. A utilização da plataforma está sujeita às políticas internas de confidencialidade, governação da informação e controlo de acessos da sociedade.

Construir um colega de IA em que os advogados pudessem confiar
A ambição não era criar a interface mais sofisticada do mercado, mas um assistente jurídico concebido para apoiar o trabalho dos advogados e aumentar a confiança dos utilizadores. Para esse efeito, as fontes tinham de ser claras, as referências verificáveis e as respostas fundamentadas em informação fiável, sobretudo quando estivessem em causa aconselhamento jurídico, conformidade e valor para os clientes.
Alcançar esse nível de confiança revelou-se exigente. Décadas de documentação e grandes volumes de conteúdos jurídicos, ainda que já estruturados e indexados, tiveram de ser aperfeiçoados e submetidos a testes exaustivos, procurando assegurar que as respostas estavam alinhadas com os padrões de qualidade da sociedade. Uma equipa multidisciplinar de advogados, em conjunto com a equipa de inovação e conhecimento, assumiu esse papel, questionando respostas, identificando fragilidades e aperfeiçoando resultados até o sistema atingir os padrões esperados. A Morais Leitão e a Xpand IT privilegiaram a confiança em detrimento da rapidez. “O foco foi sempre garantir que, quando o projeto fosse entregue, estaríamos a contribuir para aumentar a confiança dos utilizadores”, afirma Sérgio Viana, Managing Partner da Xpand IT.
Esta abordagem moldou o produto final: não um substituto do discernimento jurídico, mas uma ferramenta concebida para apoiar e ampliar o trabalho dos advogados.
“O ML One AI não é, para mim, mais uma ferramenta: é uma forma de aceder a todo o conhecimento curado, produzido pelos nossos advogados, em múltiplas áreas de prática e setores, tornando-se numa vantagem real para quem confia em nós. É esta capacidade de reinventar a forma como usamos o nosso saber que nos continua a distinguir pela qualidade, hoje e no futuro”, afirma Magda Viçoso, Sócia Corporate da Morais Leitão.
Do conhecimento armazenado à vantagem partilhada
Se desenvolver a tecnologia foi exigente, mudar a forma como as pessoas interagiam com o conhecimento revelou-se igualmente importante. Durante anos, os advogados contribuíram com conhecimento para os sistemas de gestão de conhecimento da sociedade, mas o acesso continuava relativamente tradicional: pesquisar em arquivos extensos, navegar por repositórios e interpretar manualmente grandes volumes de documentação.
O ML One AI transformou radicalmente essa experiência. Em vez de pesquisar em vários repositórios e reconstruir manualmente trabalho anterior, um advogado pode descrever um assunto complexo em linguagem natural, consultar conhecimento interno relevante e rastrear cada resposta até à respetiva fonte antes de aplicar o seu.
Talvez a consequência mais interessante tenha sido, porém, cultural e não técnica.
A nova plataforma deu aos profissionais uma razão convincente para voltar a contribuir com conhecimento para o sistema. Quando os advogados perceberam que contributos de elevada qualidade aumentariam a utilidade do ML One AI para todos, a participação acelerou. A sociedade lançou iniciativas que incentivavam as equipas a submeter documentos, conhecimento especializado e bibliotecas de prompts. Numa única campanha de contributos, os advogados disponibilizaram cerca de 2000 documentos adicionais e mais de 300 prompts, alargando a base de conhecimento coletiva da organização que já era de mais de 54 000 documentos.
O ML One AI está a transformar conhecimento armazenado em conhecimento partilhado de forma governada. Os advogados podem encontrar e aplicar o conhecimento interno a que estão autorizados a aceder, enquanto os seus próprios contributos se tornam mais visíveis e úteis para os profissionais com as permissões adequadas.
Quando um projeto-piloto de IA se torna uma prática quotidiana
Muitos projetos de IA têm dificuldade em ultrapassar a fase-piloto. O ML One AI superou esse limiar: cerca de 450 profissionais têm atualmente acesso à plataforma, com uma taxa de utilização mensal muito elevada acima dos 75%. Estes números mostram que a plataforma passou a fazer parte do processo de trabalho jurídico quotidiano. Algumas tarefas, que antes exigiam horas de pesquisa manual em várias fontes, podem agora ser concluídas em muito menos tempo, com referências aos materiais de suporte, permitindo respostas mais rápidas e coordenadas aos clientes.
A sociedade reduziu também a dependência de licenças externas de tecnologia jurídica, mantendo controlo total sobre a evolução da plataforma. Pode integrar o ML One AI com os sistemas existentes, adaptá-lo continuamente e mantê-lo alinhado com a forma de trabalhar dos seus advogados.

Redefinir os serviços jurídicos na era da IA
A relevância do ML One AI vai além da produtividade. À medida que os clientes esperam cada vez mais que os seus consultores utilizem IA, a Morais Leitão começa a redesenhar o trabalho jurídico, identificando as vantagens de utilização de IA relativamente à forma tradicional de executar determinadas tarefas, robustecendo a qualidade do prestado porque existe uma clara transferência de trabalho manual para valor intelectual. Para a Morais Leitão, eficiência, valor, capacidade de resposta e gestão de conhecimento deixaram de ser questões operacionais separadas. Em conjunto, definem um objetivo mais ambicioso: utilizar IA para desenvolver serviços jurídicos que conciliem uma prestação mais eficiente com o conhecimento especializado e os padrões profissionais da sociedade.
A ambição não é trabalhar mais depressa. É utilizar o conhecimento coletivo da sociedade para criar novas formas de prestação de serviços jurídicos.
“A experiência da Morais Leitão mostra o que muda quando as organizações tratam a IA como uma capacidade empresarial governada, e não como uma ferramenta isolada. Fundamentar as respostas em fontes fiáveis, manter os profissionais no controlo e conceber a solução para promover a adoção pode transformar o potencial tecnológico em impacto mensurável”, afirma Juan Carretero Sánchez, responsável de Assuntos Jurídicos e Externos da Microsoft Portugal.
“O ML One AI não é a história”, afirma Carlos Coelho. “A aplicação é apenas uma peça do puzzle.” A transformação mais ampla reside na forma como a Morais Leitão integra conhecimento, experiência, processos e competências no funcionamento da organização. Numa profissão assente em precedentes, a sociedade está a utilizar IA não para substituir o advogado, mas para o capacitar com décadas de conhecimento e experiência