De meses para minutos: como a Fashable está a construir o futuro da moda com IA
- Uma startup portuguesa está a reduzir os ciclos de design de moda de quase um ano para apenas algumas semanas, diminuindo drasticamente o desperdício e o stock não vendido ao usar Inteligência Artificial (IA) para prever e produzir apenas aquilo que vai colocar à venda.
- As marcas que utilizam a plataforma da Fashable não têm praticamente stock excedente e conseguem responder às tendências em tempo real – uma verdadeira revolução numa indústria onde cerca de 30% das peças de cada estação nunca chegam a ser vendidas.
- Ao colocar designers e clientes no centro e a tecnologia Microsoft nos bastidores, a Fashable demonstra como a IA pode potenciar criatividade e sustentabilidade lado a lado. O resultado: moda mais rápida, inteligente e ecológica, com o cliente como o verdadeiro criador de tendências.
Dez mil novos designs – é aproximadamente o número que um grande retalhista de moda pode produzir num ano. No entanto, de forma alarmante, cerca de um terço dessas peças nunca encontra comprador. Acabam em saldos ou, pior, em aterros ou incineradores, contribuindo para as 92 milhões toneladas de resíduos têxteis que a indústria gera anualmente, segundo o Pulse Report da Global Fashion Agenda.
O ciclo tradicional da moda – desde desenhar coleções com meses de antecedência, a produzir em massa e esperar acertar em cheio na tendência – não é apenas lento e dispendioso, mas gera também muito desperdício. A cada segundo, uma quantidade de roupa equivalente a um camião do lixo é queimada ou descartada, e as estimativas das Nações Unidas revelam que o setor da moda é responsável por gerar até 8% do volume global de emissões de carbono.
Para Orlando Ribas Fernandes, um empreendedor e inovador tecnológico português apaixonado por IA, estes números indicavam que o status quo estava pronto para mudar. “Este setor tem os mesmos processos lentos há décadas, produzindo várias coleções por ano com base em palpites, sem qualquer certeza de que as peças vão vender”, afirma. “Não é apenas um investimento arriscado, também gera muito desperdício de recursos financeiros e de materiais.”
Em 2022, Orlando fundou a Fashable com uma visão ousada: ajudar a indústria da moda a fazer mais com menos – mais criatividade, mais capacidade de resposta, mas muito menos desperdício. Nascida do XNFY Lab, um hub de inovação no retalho que lançou em parceria com a Microsoft, a Fashable começou como um projeto de investigação e rapidamente evoluiu para uma startup independente. Orlando, em conjunto com a sua pequena equipa (apenas uma dúzia de pessoas), decidiu criar uma plataforma baseada em IA capaz de reinventar todo o processo de criação de moda. A ideia orientadora era simples: e se um designer pudesse criar e testar virtualmente uma nova peça antes de a produzir?
Num mundo de gémeos digitais e IA, seria possível desenhar um vestido ou uns ténis, “mostrá-los” aos consumidores e aperfeiçoá-los em software para que só as melhores ideias fossem fabricadas? Orlando, que concluiu um mestrado em IA há 20 anos, quando “a IA era vista como um tema exótico”, sempre acreditou no potencial da tecnologia para transformar o retalho. Agora, aplica-a a uma das indústrias mais criativas, mas também mais arcaicas. “A moda é incrivelmente volátil. O que está na moda hoje pode sair amanhã”, diz Orlando. “Queríamos dar às marcas uma forma de acompanhar as tendências sem os custos e riscos habituais.” A chave, acreditava, era capacitar as pessoas no coração da moda – designers, diretores criativos e até clientes – com a IA como ferramenta de apoio. A Microsoft concordou, apoiando a Fashable com tecnologia cloud Azure e know-how desde o primeiro dia. “Os retalhistas muitas vezes não têm tempo nem recursos para impulsionar a inovação”, explica Orlando. “Por isso, criámos um ecossistema com a Microsoft onde pudéssemos experimentar de forma ousada e minimizar o risco para as marcas.”
Do esboço ao ecrã: tecendo a IA no tecido da moda
No centro da solução da Fashable está uma ideia poderosa: desenhar roupas primeiro no mundo digital. Em vez de esboçar um vestido em papel e costurar amostras durante meses, um designer pode colaborar com a IA da Fashable para gerar imagens realistas da peça em horas ou menos.
Inspiração orientada por IA: Todo o bom design começa com investigação. O sistema da Fashable analisa continuamente redes sociais, blogues de moda e dados de vendas para identificar estilos ou características que são tendência. Talvez mangas volumosas estejam a regressar no Instagram ou haja uma procura crescente por tecidos sustentáveis. A IA interpreta estes sinais e pode sugerir aos designers: “Isto é o que está em voga agora.” É como ter um especialista em tendências disponível 24/7. Isto ajuda designers e marcas a tomar decisões informadas sobre que conceitos seguir, em vez de depender apenas da intuição.
Design generativo e prototipagem: Usando Azure Machine Learning e PyTorch, a plataforma da Fashable cria rapidamente múltiplos mockups de design a partir de um prompt do designer. A IA gera imagens de alta resolução que parecem peças reais, transformando um processo que antes demorava semanas em algo que fica concluído em poucas horas num portátil. As alterações são simples de realizar, basta ajustar parâmetros ou adicionar detalhes, e os designs atualizados aparecem instantaneamente.
Coleção virtual, feedback real: A Fashable permite às marcas “criar antes de produzir”, apresentando designs digitais online ou para pré-encomenda. As marcas obtêm feedback imediato dos clientes sobre os estilos mais populares, orientando as escolhas de produção e reduzindo o desperdício. Antes, este insight só surgia após a fabricação; agora, a procura é quantificada antecipadamente.
Caminho direto para a produção: Se um design é popular, a Fashable ajuda a converter rapidamente modelos digitais em produtos físicos, gerando especificações técnicas para fábricas. Embora não seja um marketplace de produção, a Fashable conecta marcas a fornecedores para produção rápida em pequenas quantidades. Algumas marcas usam a Fashable para pré-encomendas, vendendo através de imagens geradas por IA antes de produzir as quantidades exatas. Como Orlando refere, a Fashable faz a ponte entre design e o produtor, permitindo uma produção eficiente com base na procura e com quase zero desperdício.
“A Fashable é um exemplo extraordinário de como a Cloud da Microsoft e a IA Generativa podem transformar indústrias tradicionais. Ao democratizar o acesso a ferramentas de computação de alta performance, permitimos que startups portuguesas não só criem novos modelos de negócio, mas liderem a conversa global sobre o futuro do retalho sustentável.” – Microsoft
De meses e milhões para semanas e decisões orientadas por dados
Ao reinventar a forma como a moda é criada, a Fashable reduz drasticamente o ciclo de desenvolvimento e melhora os resultados. Para as empresas, isto traduz-se em ganhos concretos: o time-to-market pode agora ser de um ou dois meses em vez de um ano. Esta rapidez é crucial numa era em que uma tendência no TikTok pode explodir e desaparecer numa estação. Com a Fashable, uma marca pode aproveitar um estilo emergente enquanto a procura está alta – e ser a primeira no mercado. Como Orlando resume: “Podemos passar de uma ideia para vender o produto em apenas algumas semanas. Antes era impossível: quando se adivinhava uma tendência e se fabricava a peça, o cliente já tinha mudado de opinião.”
Financeiramente, o modelo é atrativo. As marcas gastam muito menos em desenvolvimento e em stock que não vende. Criar uma amostra física pode custar milhares, considerando horas de design, materiais e fotografia; as amostras digitais da Fashable custam uma fração disso. Mais importante, ao produzir apenas os modelos mais populares validados, as marcas não desperdiçam dinheiro em “fracassos”. Tradicionalmente, os retalhistas assumem que 20-30% de uma nova linha terá fraco desempenho e acabará em saldos; isso é visto como custo do negócio. A Fashable inverte este paradigma: a maior parte do que é produzido agrada aos clientes, porque foram eles que, na prática, votaram nisso. Isso significa taxas de venda ao preço original mais elevadas, menor necessidade de aplicar descontos e melhores margens. Um dos primeiros a adotar essa estratégia viu a taxa de venda a preço original de uma nova coleção cápsula crescer de 70% para quase 90%, simplesmente ao eliminar os designs mais fracos desde o início e ao apostar nos favoritos. Outra marca reduziu o seu orçamento para produção de amostras em 60%, libertando fundos para marketing digital que, por sua vez, geraram mais feedback online para designs, criando um ciclo positivo.
Fazer mais com menos: mais criatividade, mais agilidade, mas muito menos desperdício
Hoje, já com alguns anos de experiência, a abordagem da Fashable ganhou um grande impulso. A startup trabalha com oito grandes clientes em quatro países, desde retalhistas de moda convencionais até um atelier de luxo. Já ajudou a produzir mais de 20 coleções com IA, desde vestidos de verão a ténis. E não são apenas os estúdios de design que mudaram; as empresas relatam que esta experiência revigorou toda a força de trabalho. Os colaboradores sentem orgulho na abordagem sustentável e em estar na vanguarda.
O fundador, Orlando, gosta de contar a história de um veterano da indústria que inicialmente duvidava da IA e agora lidera a iniciativa de “moda digital” da empresa. “O maior desafio é mental”, diz Orlando, citando uma lição que aprendeu durante esta jornada. “Assim que as pessoas experimentam um pouco de sucesso com a nova ferramenta, não querem voltar atrás.”
“Na Microsoft, acreditamos que a tecnologia deve ser um catalisador para resolver os maiores desafios do planeta. O trabalho da Fashable demonstra que não é necessário escolher entre rentabilidade e sustentabilidade; com a IA, as marcas podem reduzir desperdícios massivos ao mesmo tempo que respondem com uma agilidade sem precedentes aos desejos dos consumidores.” – Microsoft
A jornada da Fashable, desde uma ideia embrionária num laboratório apoiado pela Microsoft até uma solução próspera usada por designers, mostra como a IA, quando aplicada de forma ponderada, pode amplificar a criatividade humana em vez de a substituir. Os designers continuam a ser os protagonistas, mas agora com um assistente de IA que os ajuda a brilhar ainda mais. Os clientes recebem mais do que realmente querem e sentem-se ouvidos e valorizados pelas marcas. As plataformas de IA da Microsoft asseguram que tudo funciona à escala global e com rapidez. E, o mais importante, os benefícios comerciais e ambientais estão alinhados.