Construir o futuro: Como os data centers estão a inovar com foco na sustentabilidade
Por Chris Welsch | 7 de Novembro 2025
Numa escola primária em Antuérpia, na Bélgica, crianças imigrantes recorrem a aplicações de Inteligência Artificial (IA) para acompanhar os colegas holandeses nas aulas e aprender a língua mais rapidamente. Em Exeter, no Reino Unido, meteorologistas do governo no Met Office fazem previsões que salvam vidas num supercomputador com funcionalidades de IA no Azure. Em Itália, investigadores governamentais estão a usar a capacidade da cloud para decifrar o código genético do trigo e encontrar formas de o tornar mais resiliente às alterações climáticas.
Para além das aplicações de IA e da supercomputação, grande parte da nossa vida digital quotidiana – desde pesquisas e emails potenciados por IA até fotos e ficheiros armazenados – depende da cloud. E o que torna possível tanto a IA como a computação em cloud são os data centers. A Microsoft tem vindo a expandir continuamente a sua capacidade de cloud para os clientes. Só entre 2023 e 2027, a Microsoft terá aumentado a capacidade de cloud na Europa em 40%. Até ao final de 2026, terá operações em mais de 200 data centers em toda a Europa.
Para responder de forma responsável à crescente procura, a Microsoft definiu objetivos ambiciosos para reduzir o impacto ambiental e dar prioridade à sustentabilidade. A empresa pretende ser carbono negativo, positiva em água e zero resíduos até 2030. Para alcançar este objetivo, a Microsoft está a construir os seus novos data centers com uma variedade de abordagens inovadoras e a modernizar e reinventar os mais antigos. Eis algumas das formas como isso está a acontecer:
Colocar a biodiversidade e a paisagem no centro do design
Em Middenmeer, a norte de Amesterdão, nos Países Baixos, a Microsoft colaborou com a comunidade para encontrar formas de integrar melhor um data center existente na paisagem da Holanda do Norte. Em estreita colaboração com arquitetos paisagistas locais, a equipa plantou 150 árvores nativas e adicionou 2.300 metros quadrados de arbustos, relvas e outras plantas para criar um campus que se funde de forma mais harmoniosa com a envolvente.
Olhando para o futuro, seis novos data centers planeados nas proximidades estão a ser concebidos com os princípios da biomimética como prioridade – procurando integrar os edifícios na paisagem, ao mesmo tempo que reforçam a biodiversidade local e reduzem o impacto ambiental. Florien ten Hove, Community affairs manager da Microsoft para data centers nos Países Baixos, explicou que a paisagem e a biodiversidade eram, antes, uma preocupação secundária. Hoje, são a base dos planos da empresa. Segundo referiu, para os membros da comunidade, a paisagem e a poluição luminosa são, “de longe”, as maiores preocupações.
“Agora invertêmo-lo, e a paisagem é a base do design”, afirmou. “É uma abordagem totalmente diferente, toda baseada na biomimética.”
Kaitlin Chuzi, director of biomimicry para data centers da Microsoft, afirma que o programa de biomimética nos Países Baixos vai além da estética. “Esperamos que as plantas nativas que escolhemos reflitam um ecossistema saudável e resiliente, apoiem a biodiversidade, melhorem o controlo das águas pluviais e previnam a erosão, ao mesmo tempo que refletem a beleza natural da Holanda do Norte”, disse.
Salvar e restaurar um recurso precioso: a água
Após mais de três anos de seca severa, Espanha tem hoje uma sensibilidade acrescida para a importância essencial da água. Como parte do seu compromisso de ser positiva em água até 2030, a Microsoft está a construir data centers em Saragoça que utilizam zero água para arrefecimento, graças à implementação de tecnologias avançadas de arrefecimento por ar e líquido diretamente no chip, que funcionam num sistema de circuito fechado. A água é introduzida apenas uma vez, durante a construção, e depois recirculada continuamente entre os servidores e os chillers para dissipar o calor – eliminando a necessidade de mais água.
“Estamos a conceber, construir e operar centros de dados alinhados com a realidade da comunidade”, afirmou Ana Liesa Sorinas, community affairs manager da Microsoft para data centers em Espanha.
Mas, como Sorinas sublinha, este sistema de arrefecimento em circuito fechado é apenas o início; a Microsoft está a colaborar com organizações locais em dois projetos que visam poupar água.
Em Saragoça, sete explorações agrícolas iniciaram, em março de 2025, um projeto para irrigar culturas de forma mais eficiente e com menos desperdício. Numa área de 740 hectares, os agricultores estão a instalar sensores e a usar IA para fornecer água exatamente quando e onde é necessária, com o objetivo de poupar 100.000 metros cúbicos de água por ano até 2027. Este projeto-piloto inclui também formação na tecnologia, para capacitar mais agricultores da região com ferramentas de IA que poupam água sem comprometer a produtividade.
Outra colaboração aborda a perda de até 25% da água potável durante o transporte na rede espanhola de 275.000 quilómetros de condutas. O culpado: fugas. Utilizando uma esfera inteligente chamada Nautilus, que percorre as tubagens para identificar fugas, o objetivo do projeto é acelerar as reparações e poupar este recurso precioso. “Combinamos os nossos esforços de redução de consumo com investimento em projetos de recuperação de água para proteger as várias bacias hidrográficas”, afirmou Eoin Doherty, vice president of Cloud Operations + Innovation da Microsoft Europa, Médio Oriente e África. “Vemos isto como uma forma de ajudar a restaurar e proteger os recursos hídricos onde operamos.”
Aço reciclado: dar nova vida a um data center
Em 2022, a Microsoft adquiriu uma antiga fábrica de radiadores, situada num terreno de 40 acres em Newport, no País de Gales, para instalar um data center. Estruturada com vigas de aço, a velha fábrica colocava um desafio: seria possível construir o novo edifício, pelo menos em parte, reaproveitando essas vigas?
John O’Sullivan foi contratado como gestor do projeto de construção do data center de Newport e abraçou a tarefa. O’Sullivan explica que, por vezes, já viu projetos de sustentabilidade sem grande substância. “Mas, para mim, este era algo tangível”, afirmou. “Podia tocar, podia ver, podia perceber que podíamos fazer a diferença aqui.”
Atualmente, a estrutura está parcialmente concluída e 10% do aço que a sustenta provém do edifício original – poupando cerca de 520 toneladas de dióxido de carbono. A empresa encontrou também fornecedores de aço reciclado, o que permitiu que o edifício utilizasse 74% de aço reciclado no total, com uma poupança de carbono de 4.400 toneladas.
Para além do aço, o data center está igualmente a dar prioridade à paisagem e à biodiversidade, refere O’Sullivan. Estão a ser plantadas árvores, habitats arbustivos e relvas nativas para criar corredores de vida selvagem entre habitats em ambos os lados da propriedade, um dos quais é uma reserva natural que tinha caído em desuso e onde algumas pessoas depositavam lixo.
O vereador Dimitri Batrouni, líder do Conselho Municipal de Newport, afirma que a Microsoft ajudou a restaurar a reserva natural e tem respondido às preocupações da comunidade sobre ruído, paisagem e impacto ambiental.
Outrora um polo industrial com uma siderurgia que empregava cerca de 10.000 pessoas, Newport tem vindo a centrar-se no desenvolvimento da sua economia tecnológica, com vários data centers, bem como operações de semicondutores e microchips, refere Batrouni. “Das cinzas emergiram as indústrias do novo mundo, baseadas em dados e microchips”, afirma. Está a lutar por mais programas de formação porque “é importante mostrar à população local que estes empregos também são para eles.”
Fechar o ciclo de uso, reutilização e reciclagem
Num mundo onde os recursos são preciosos, cada elemento de um data center tem potencial para ser usado, reutilizado e reciclado, reduzindo assim a procura por tudo, desde plásticos a minerais raros. Para concretizar esta visão, a Microsoft abriu o seu primeiro Circular Center em Amesterdão, em 2020; atualmente existem oito centros em todo o mundo, com vários outros em construção. Estes centros funcionam como pontos de recolha para recuperar e reaproveitar componentes de data centers, ajudando a Microsoft a avançar para o objetivo de zero resíduos até 2030. Em 2024, a empresa atingiu um marco significativo: uma taxa de reutilização e reciclagem de 90,9% de servidores e componentes, superando a meta de 90% para 2025, um ano antes do previsto.
O mais recente centro circular está atualmente a ser construído em Newport, junto ao novo data center que está a ser erguido no local. Tal como os restantes, irá reciclar e reutilizar servidores e outros equipamentos, partilhando-os, em alguns casos, com programas locais de formação profissional para ajudar a capacitar a próxima geração de técnicos. O centro circular de Newport, responsável pela reciclagem de materiais de todos os centros de dados da Microsoft no Reino Unido, deverá processar cerca de 500.000 libras, ou aproximadamente 226.800 quilos, de material por ano.
Ser um “bom cidadão da rede elétrica”
A eletricidade flui como um rio através das linhas de energia, sempre na mesma frequência – na Europa, trata-se de uma “onda sinusoidal” de 50 hertz. Além disso, a produção de eletricidade deve corresponder ao consumo, porque, ao contrário de um rio, o fluxo de eletrões não pode ser represado. O crescimento das fontes de energia renovável complicou este equilíbrio: como o vento nem sempre sopra e o sol nem sempre brilha, os níveis de energia são menos previsíveis e equilibrar consumo e produção é mais desafiante.
É aqui que entra a Microsoft. Nos novos data centers que estão a ser construídos na Finlândia, Suécia e Dinamarca, a empresa está a ligar um sistema de baterias de reserva sofisticadas (conhecidas como GUPS, ou Grid-Interactive Uninterruptible Power Supply) para estabilizar as redes elétricas locais. Estes sistemas, que já estão em uso na Irlanda há vários anos, ajudam a manter uma frequência estável na rede, mesmo quando as condições meteorológicas mudam e o fluxo de energia oscila. O hardware já foi instalado em dois data centers na Dinamarca e na Suécia e deverá entrar em funcionamento no próximo ano.
O sistema de baterias funciona para “suavizar o fluxo, fazendo apenas pequenas correções ao longo do caminho e mantendo a onda sinusoidal com bom aspeto”, afirmou Olli Huotari, senior program manager a cargo do programa GUPS nos países nórdicos. Huotari refere que este serviço está alinhado com o objetivo da Microsoft de ser carbono-negativa, ao facilitar a integração da energia renovável.
“Claro que tem um custo para nós”, acrescenta, “e precisamos de renovar as baterias um pouco mais frequentemente, mas vemos isto como uma daquelas coisas que nos tornam um bom cidadão da rede elétrica.”
Aquecer casas e empresas com calor reciclado
Imagina que, sempre que fazias uma videoconferência ou enviavas um email, estavas a ajudar a aquecer a tua casa – e outras na vizinhança. Para comunidades na Finlândia e na Dinamarca, isso está a tornar-se realidade graças a programas de recuperação de calor residual que canalizam o calor dos centros de dados para as redes municipais de aquecimento.
No caso da Finlândia, a Microsoft fez parceria com a empresa de energia local Fortum num projeto que, segundo Shannon Wojcik, senior manager do projeto da Microsoft responsável pela iniciativa, irá fornecer calor a 250.000 clientes em Espoo, Kirkkonummi e Kauniainen. Os data centers envolvidos fazem parte do compromisso da Microsoft de adquirir energia renovável suficiente para cobrir 100% do consumo energético da empresa. “Especialmente nos países nórdicos, utilizam o calor dos data centers como um recurso realmente valioso para as suas redes de aquecimento”, afirma. O sistema deverá entrar em funcionamento em 2027.
No campus de Espoo, o ar quente proveniente dos sistemas de arrefecimento será convertido em água quente (30 graus Celsius, cerca de 86 graus Fahrenheit). A Fortum construiu uma central de bombas de calor perto do data center para aumentar a temperatura antes de a injetar na rede municipal de aquecimento, que fornecerá água quente para aquecer casas e empresas. Um sistema semelhante está a ser implementado na Dinamarca, numa rede municipal que serve comunidades perto de Copenhaga.
Wojcik refere que a Microsoft prevê mais colaborações deste tipo e até a partilha do calor dos data centers com outras empresas. “Acho que existem muitas oportunidades, não apenas com sistemas de aquecimento distrital”, afirma. “As estufas são um exemplo – se conseguíssemos colocar data centers ao lado de estufas, ou vice-versa, estas necessitam de calor a temperaturas mais baixas, pelo que não seria necessário aumentar tanto a temperatura.”
*Todas as ilustrações foram criadas com a ajuda do Microsoft Copilot.
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